Essa porra é um campo minado. Quantas vezes eu pensei em me jogar daqui. Mais ai, minha area é tudo que eu tenho, a minha vida aqui, eu naum consigo sair. É muito facíl fugir, mas eu não vou. Não vou trair quem eu fui, quem eu sou. Eu gosto de onde estou, e de onde eu vim. Ensinamentos do subúrbio sempre foram bons pra mim. Cada lugar um lugar. Cada lugar uma lei, eu sempre respeitei. Levantar uma grana pra comprar uns panos, um bom advogado pra tirar meu mano. Então, como eu estava dizendo sangue bom, isso não é sermão. Ouve ai! Tenha o dom. Eu sei como é. É foda parceiro! A maldade na cabeça o dia inteiro. Nada de roupa, nada de carro, sem emprego, não tem ibope, não tem role, sem dinheiro. Sendo assim, sem chance, sem mulher. Você sabe muito bem o que ela quer. Encontre uma de caráter se você puder. É embaçado ou não é? Ninguém é mais que ninguém. Absolutamente, aqui quem fala é mais um sobrevivente. Eu era só um moleque, cabelo black e tênis all star. Na roda da função mó zoeira, tomando vinho seco em volta da fogueira. A noite inteira só contando história. Sobre o crime, sobre as tretas na escola. Não tava nem ai, nem levava nada a sério, admirava os ladrões e os malandros mais velhos. Mas se liga, olha a seu redor e me diga: o que melhorou? Que sobrou? Sei lá! Muito velório rolou de lá pra cá, qual a próxima mãe que vai chorar. Demorou. Mas hoje eu posso compreender, malandragem de verdade é viver. Agradeço a Deus e orixás, parei no meio do caminho e olhei para trás. Meus outros irmãos foram longe demais. Cemitério Taguatinga (aqui jaz). Mas que merda meu oitão ta até a boca. Que vida louca! Porque é que tem que tem que ser assim? Ontem eu sonhei que um fulano se aproximou de mim, agora eu quero ver ladrão! Enfim, sonho é sonho, deixa quieto. Sexto sentido é um dom, eu estou esperto. Morrer é um fator, mas conforme for, tem no bolso, na agulha e mais cinco no tambor. Que calor! Que horas são agora? Dá para ouvir a molecada gritando lá fora. Cheguei cedo pra ver senti a brisa de manhã e o sol nascer. É época de pipa, o céu ta cheio. Há quinze anos atrás eu tava ali no meio. Lembrei de quando era pequeno, eu e os caras, faz tempo( o tempo não para). Você viu ontem? Tiro aos montes! Diz que tem muito sangue lá no chão. Tiro, treta, sangue. Ai! Muda de assunto! Trás a fita pra ouvir por que eu to sem, principalmente aquela lá do Jorge bem. Uma porção de amigos presos chora a solidão, outra porção de amigo sem disposição, penhorando por ai, rádio, tênis, calça... pos no cachimbo e virou fumaça. Não é por nada não. Eu nem ligo. A minha liberdade eu curto bem melhor. Eu não estou nem ai para o que os outros falam. Pode vir PM paga pau! To na minha! Na moral! Sem bagulho, sem pó! Eu sou esperto, tenho a minha regra. Trabalho todo dia, não fumo pedra. Um role com meus amigos já me faz feliz. Respeito mútuo é a chave! É o que eu sempre quis. Procure a sua, a minha eu vou atrás. Atrás da minha formula mágica da paz. Choro e correria no saguão do hospital, dia das crianças, feriado indo pro final. Sangue, desarmonia entra pelo corredor. Ele ta vivo? Pelo amor de Deus doutor! Quatro tiros do pescoço pra cima. Puta que pariu! A chance é mínima! Aqui fora revolta e dor, lá dentro estado desesperador. Eu percebi quem eu sou realmente, quando eu ouvi o meu sub consciente. “-e ai saci cuzão! Cadê você? Seu irmão ta morrendo o que você vai fazer?” Eu me senti inútil, eu me senti pequeno. Mais um cuzão vingativo. Não dá pra acreditar! Que pesadelo! Eu quero acordar! Não da! Não deu! Não daria de jeito nenhum! O Paulinho era só mais um rapaz comum. Daqui a poucos minutos... mais uma dona Maria de Luto. Na parede o sinal da cruz. Que porra é essa? Que mundo é esse? Onde está Jesus? Mais uma vez o emissário, não inclui Taguá em seu itinerário. Porra eu to confuso! Me da um tempo pra raciocinar. Eu já não sei distinguir quem ta errado! Preto, branco, polícia, ladrão ou eu? Quem é mais filho da puta é você! fudeu! Decepção essa hora... a depressão quer me pegar, vou sair fora! Dois de novembro era finado, eu parei em frente ao cemitério do outro lado. E durante uma meia hora olhei um por um. E o que todas as senhoras tinham em comum. A roupa humilde, a pele escura, o rosto abatido pela vida dura. Colocando flores sobre a sepultura. Podia ser a minha mãe(que loucura). Cada lugar uma lei eu sei. Daqui ao extremo sul ta tudo errado. Aqui vale muito pouco a sua vida. Nossa lei é falha, violenta e suicida. O “diz que me diz que ”. Parágrafo primeiro da lei da favela. Assustador, é quando se descobre que tudo deu em nada, e que só morre pobre. A gente vive se matando. Porque? Não me olhe assim! Eu sou igual a você. procure sua formula mágica da paz.
